terça-feira, 15 de agosto de 2006 11:23
As declarações de Fidel Castro divulgadas no dia de seu 80º aniversário, no domingo, nas quais ele pediu aos cubanos que fossem "sempre otimistas, mas ao mesmo tempo para estarem preparados sempre para qualquer notícia adversa", receberam duas interpretações de especialistas em Cuba nos Estados Unidos.
Brian Latell, analista-chefe da CIA para a América Latina entre 1990 e 1994, é considerado um dos principais especialistas sobre o regime de Havana. "Fidel está dizendo ao povo cubano que talvez a operação a que ele se submeteu em 31 de julho tenha sido bem-sucedida, mas não resolveu o problema e todos devem estar prontos para receber a pior notícia possível", afirmou Latell. Segundo ele, as afirmações "sugerem que Fidel sofre de um câncer terminal, provavelmente de intestino, em processo de metástase".
A segunda interpretação é compartilhada por outros analistas e deriva da maneira controlada e deliberada com que o regime está lidando com a doença de Fidel - cuja conseqüência já se materializou na transmissão do poder para o sucessor constitucional, Raúl Castro: a transição em Cuba deverá ser lenta, gradual e segura.
Contrariando a premissa das políticas de Washington para o imediato pós-Fidel - repetida na sexta-feira pelo secretário-adjunto de Estado para a América Latina, Thomas Shannon, segundo a qual o regime não sobreviverá ao desaparecimento de seu criador -, os fatos estão demonstrando que a transição está em curso.
"Estávamos mal preparados para a eventualidade de continuidade em vez de mudança", disse ao jornal The New York Times o diretor do Centro de Pesquisas Cubanas da Universidade Internacional da Flórida, Damián Fernández: "Todas as nossas políticas foram construídas com base no que desejaríamos que acontecesse."
Latell riu ao ouvir a avaliação oficial, segundo a qual o governo cubano não demorará para entrar em colapso depois que Fidel sair de cena. Em seu livro Depois de Fidel - A História por Dentro do Regime de Castro, do ano passado, e num artigo que publicou há dois domingos no jornal The Washington Post, o ex-analista da CIA e professor visitante de universidades americanas sustenta que Raúl Castro tem fortes chances de consolidar-se no poder, que já controla há tempos em áreas essenciais como a segurança e defesa, por delegação de seu irmão.
Economia - Latell chega mesmo a especular sobre a possibilidade de, após algum tempo, Raúl Castro entregar o governo ao vice-presidente, Carlos Lage, e manter o comando do Partido Comunista e das Forças Armadas, iniciando depois uma abertura gradual do regime, pela economia.
Mark Falcoff, especialista em América Latina do American Enterprise Institute e autor do livro Cuba, the Morning After, de 2003, concorda com o cenário de transição descrito por Latell. Para ele, reforça esse cenário a atitude cuidadosa adotada por Washington diante da doença de Fidel.
"Os EUA não querem uma crise em Cuba", disse Falcoff. "A preocupação imediata é evitar uma crise migratória", disse ele. "E, nas Forças Armadas americanas, não havia nenhuma simpatia por uma intervenção militar na ilha mesmo antes da guerra no Iraque; quando o país tinha forças disponíveis para isso, que hoje não tem."
Fonte: www.ibest.com.br
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